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Saudade, Jogo de Cintura e Ubuntu: Os Valores Lusófonos que Estão Chegando às Salas de Reunião Americanas

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Saudade, Jogo de Cintura e Ubuntu: Os Valores Lusófonos que Estão Chegando às Salas de Reunião Americanas

Photo: diverse business professionals meeting boardroom multicultural leadership, via img.freepik.com

Quando Mariana Fonseca entrou pela primeira vez numa sala de reunião de uma grande consultoria em Chicago, ela sabia que era diferente. Não só pelo sotaque que ainda escapava de vez em quando, mas por algo mais difícil de nomear — uma forma de ouvir, de negociar, de lidar com o conflito que os colegas americanos simplesmente não tinham palavra para descrever.

"Um dia meu chefe me perguntou como eu tinha conseguido convencer um cliente difícil a mudar de ideia sem ele perceber que tinha mudado", conta Mariana, filha de imigrantes portugueses criada em Newark. "Eu ri e disse: isso é jogo de cintura. Ele ficou me pedindo para explicar por uma semana inteira."

A história de Mariana não é isolada. Pelo contrário, ela faz parte de um fenômeno crescente e pouco documentado: a influência silenciosa — mas real — da filosofia e dos valores lusófonos no ambiente corporativo dos Estados Unidos.

Uma Herança que Vai Além do Sotaque

Falar em filosofia lusófona pode soar acadêmico demais, mas na prática ela aparece nos gestos mais cotidianos de quem cresceu entre dois mundos. O conceito português de saudade — aquela melancolia doce por algo que foi ou que talvez nunca existiu — ensina uma relação com o tempo e com a perda que muitos executivos lusófonos dizem ter transformado sua capacidade de lidar com fracassos e mudanças.

"No mundo corporativo americano, a cultura é de seguir em frente, sempre para frente, sem olhar para trás", explica Daniel Carvalho, CEO de uma startup de tecnologia em Miami com raízes angolanas. "O ubuntu me ensinou que nenhum de nós chega a lugar nenhum sozinho. Isso muda completamente como você monta um time, como você divide crédito, como você enxerga o sucesso."

Ubuntu — o princípio filosófico originário dos povos bantu e profundamente enraizado na cultura angolana e moçambicana — pode ser traduzido, de forma simplificada, como "sou porque somos". No contexto empresarial americano, onde o individualismo é quase um valor sagrado, esse conceito cria um contraste poderoso.

O Jogo de Cintura Como Estratégia de Negócios

Se o ubuntu oferece uma visão coletiva de liderança, o jogo de cintura brasileiro representa algo diferente: a capacidade de improvisar, adaptar e encontrar saídas criativas em situações sem manual de instrução.

Paula Drummond, diretora de operações de uma rede de varejo em Boston e filha de brasileiros do interior de Minas Gerais, descreve o jogo de cintura como "o MBA que ninguém ensina".

"Cresci vendo minha mãe resolver problema sem recurso, sem dinheiro, sem apoio institucional nenhum. Ela improvisava. E quando cheguei ao mercado americano e a pandemia derrubou toda a nossa cadeia de suprimentos, fui a única no time que não entrou em pânico. Porque pânico é um luxo que imigrante não pode ter."

Essa capacidade adaptativa, que pesquisadores de gestão chamariam de resilience ou agility, tem raízes culturais profundas para quem cresceu em contextos de incerteza — seja no Brasil, em Portugal ou nos países africanos de língua portuguesa.

A Terceira Geração Que Decidiu Não Apagar as Origens

Há uma diferença geracional importante nessa conversa. A primeira geração de imigrantes lusófonos frequentemente tentou se assimilar, suavizando as diferenças para se encaixar. A segunda geração viveu o conflito de identidade clássico — nem totalmente de lá, nem totalmente daqui. Mas a terceira geração está fazendo algo novo: ela está escolhendo ativamente preservar e valorizar esses traços culturais como diferencial.

Ricardo Mendonça, neto de cabo-verdianos e gestor de produto numa empresa de tecnologia em San Francisco, diz que foi só depois de fazer terapia que entendeu o valor do que carregava.

"Por anos eu tentei ser o americano mais americano do escritório. Direto, objetivo, sem rodeios. Mas eu era péssimo nisso e ficava me sentindo falso. Quando parei de tentar apagar minha forma de me relacionar — que é mais indireta, mais relacional, mais baseada em confiança do que em contrato — as coisas começaram a funcionar de verdade."

Quando a Cultura Vira Currículo

A consultora de diversidade e inclusão Isabel Santos, que trabalha com empresas do Fortune 500 em Nova York, observa uma mudança real na forma como as organizações americanas estão começando a enxergar a bagagem cultural de profissionais lusófonos.

"Tem uma percepção crescente de que diversidade cultural não é só sobre raça ou gênero. É sobre formas diferentes de pensar, de resolver problemas, de construir relações. E os lusófonos têm uma combinação muito particular: são ponte entre o mundo ocidental e o mundo global do sul. Isso é extremamente valioso."

Isabel ressalta, no entanto, que esse reconhecimento ainda é irregular e que muitos profissionais lusófonos ainda enfrentam o duplo trabalho de provar competência técnica enquanto navegam preconceitos sobre seus países de origem.

"Quando o Brasil aparece no noticiário americano, geralmente é para falar de desmatamento ou política. Quando Angola aparece, é conflito ou pobreza. O profissional lusófono precisa constantemente contradizer esse imaginário só para ser levado a sério. É um esforço invisível que os colegas brancos americanos simplesmente não têm que fazer."

O Futuro da Liderança Tem Sotaque

Apesar dos desafios, o movimento é claro. Em comunidades lusófonas de Boston a Los Angeles, uma nova geração de líderes está emergindo — não apesar de suas origens, mas por causa delas.

Mariana Fonseca, a consultora de Chicago que abriu essa reportagem, hoje lidera um programa interno na sua empresa para ensinar o que ela chama de "inteligência cultural lusófona" para colegas americanos.

"Não é sobre ensinar português ou culinária. É sobre mostrar que existe outra forma de fazer negócios — uma que coloca a relação humana no centro, que sabe que o tempo nem sempre é linear, que entende que flexibilidade não é fraqueza."

No fim das contas, talvez o maior legado que a comunidade lusófona esteja deixando no mundo corporativo americano seja exatamente esse: a prova de que identidade cultural e sucesso profissional não são opostos. São, na verdade, a mesma coisa.

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